Cérebros conectados colaboram tão bem em realidade virtual quanto no mundo real
Quando duas pessoas trabalham juntas para resolver um problema, seus cérebros podem literalmente entrar em sintonia. Essa sincronia neural, ou seja, a coordenação dos ritmos cerebrais entre indivíduos, tem sido associada à colaboração eficaz em tarefas compartilhadas. Mas será que esse fenômeno também acontece em ambientes virtuais imersivos, como a realidade virtual (VR)? Um estudo recente mostra que sim, e com resultados surpreendentemente semelhantes aos observados no mundo físico.
Pesquisadores da Universidade do Sul da Austrália e da Universidade de Auckland conduziram o primeiro experimento a investigar, com eletroencefalografia simultânea (EEG hyperscanning), a sincronização cerebral entre duplas durante uma tarefa de atenção conjunta realizada tanto em realidade virtual quanto em um ambiente físico real. O objetivo era simples, mas ambicioso: avaliar se os cérebros colaboram da mesma forma em mundos digitais assim como colaboram no universo físico.
À procura do alvo, dentro e fora do headset
A tarefa envolvia uma busca visual em conjunto: localizar objetos-alvo em meio a dezenas de itens distratores dispostos em estantes. Os participantes, 28 adultos jovens, organizados em 14 duplas que se conheciam previamente, completaram duas versões do desafio: uma com os objetos projetados em um espaço físico (condição do mundo real) e outra com os mesmos elementos renderizados em um ambiente de realidade virtual, visualizado por meio de um headset imersivo.
O estudo foi desenhado para comparar não só os efeitos da colaboração em relação ao desempenho individual, mas também os impactos do ambiente, seja físico ou virtual, sobre os padrões de sincronia neural. Em cada ambiente, os participantes realizaram a tarefa tanto sozinhos quanto em dupla, com a ordem das condições distribuída aleatoriamente. Isso permitiu aos pesquisadores observarem como o contexto e a colaboração influenciam a atividade cerebral sincronizada entre parceiros.
Mais sincronia, melhor desempenho
Durante as sessões, o cérebro de cada participante foi monitorado em tempo real com EEG de 32 canais. As análises se concentraram especialmente na medida chamada Phase Locking Value (PLV), que avalia o grau de sincronia entre sinais cerebrais ao longo do tempo. Quanto maior o PLV, maior o alinhamento das oscilações neurais, indicativo de que os cérebros estão “trabalhando em conjunto”.
Os resultados foram claros: a sincronia cerebral foi significativamente maior nas tarefas feitas em duplas do que nas realizadas individualmente, tanto na realidade virtual quanto no mundo real. E mais: o número de conexões sincronizadas entre os cérebros se correlacionou fortemente com o desempenho das duplas, sendo que quanto maior a sincronia, mais acertos na tarefa e menor o tempo de resposta. Essas correlações foram observadas principalmente nas bandas beta, gama e teta do EEG, associadas a funções cognitivas como atenção, tomada de decisão e processamento de informações complexas.
Curiosamente, em algumas métricas, o desempenho e a sincronia foram ligeiramente superiores na realidade virtual em relação ao mundo físico. Embora essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa, ela desafia a suposição comum de que o ambiente virtual é sempre menos eficaz para atividades cognitivas complexas. A VR se mostrou, nesse caso, um substituto promissor do ambiente presencial, ao menos no que diz respeito à colaboração e ao engajamento cerebral.
Um dos fatores que contribuiu para esses resultados positivos foi o cuidado com o realismo e a interatividade do ambiente virtual. Os participantes podiam explorar livremente as estantes em 3D, girar a cabeça e buscar os objetos como fariam em um espaço físico.
Sensação de presença: tão real quanto o real
Além de medidas objetivas, os pesquisadores também coletaram dados subjetivos por meio de questionários. Os participantes avaliaram como se sentiram em relação à presença do parceiro e à colaboração com ele nas duas condições. Os resultados mostraram que os níveis de conexão percebida, senso de presença e cooperação foram igualmente altos em VR e no mundo real, sem diferenças estatísticas significativas. Isso sugere que, para os usuários, a VR oferece uma experiência social comparável à de um encontro físico, o que é uma constatação importante para quem projeta ambientes digitais colaborativos.
Uma ponte entre realidades
Os resultados da pesquisa trazem contribuições significativas e abrem novas perspectivas para o estudo da colaboração humana mediada por tecnologia. Em primeiro lugar, demonstram de forma robusta que a VR não é apenas uma simulação gráfica imersiva, mas também pode ser um ambiente confiável e cientificamente válido para investigar dinâmicas neurais associadas à interação social. Algo que, até recentemente, era possível apenas em laboratórios físicos altamente controlados. O fato de a VR reproduzir, com alta fidelidade, padrões de sincronização cerebral semelhantes aos observados no mundo real mostra que ela pode ser usada como um “laboratório portátil” para estudos cognitivos e sociais mais complexos, com maior controle de variáveis e potencial para experimentos mais realistas.
Segundo os autores, é possível estudar de forma precisa a colaboração humana em ambientes digitais, com métricas cerebrais confiáveis que se correlacionam com o desempenho. Isso permite um futuro em que poderemos medir e aprimorar a cooperação entre pessoas, mesmo que estejam a milhares de quilômetros de distância.
Em um mundo cada vez mais conectado digitalmente, entender como nossos cérebros interagem em ambientes virtuais não é apenas fascinante, é essencial. Por isso, ao mostrar que o elo invisível que liga mentes humanas pode ir além da mesa do escritório e atravessar também o espaço entre realidades físicas e digitais, o estudo abre novas possibilidades para avançar nesse campo de estudos.
O artigo intitulado “Inter-brain synchrony in real-world and virtual reality search tasks using EEG hyperscanning.”, foi publicado em 2025 na revista Frontiers in Virtual Reality e escrito por Ashkan Hayati, Amit Barde, Ihshan Gumilar, Abdul Momin, Gun Lee, Alex Chatburn e Mark Billinghurst.